Quem está empolgado com a Copa do Mundo tem uma ótima oportunidade para conhecer mais a cultura do local que é a sede dos jogos.
São diversas as contribuições africanas, mas nem sempre são devidamente divulgada. Raízes da formação do povo brasileiro, temos sua influência na literatura, no cinema, na música, na culinária. O Cultura na Mesa dá apenas uma pitada de toda a mistura que é originária da África.
O primeiro destaque é para a literatura, uma verdadeira miscelânea de estilos. Um dos autores frequentemente citados pela crítica é o sul-africano John Maxwell Coetzee.
Nascido na Cidade do Cabo, Coetzee recebeu o Nobel de Literatura em 2003 por seu livro “Disgrace”, traduzido para o português como “Desonra”. A Academia Sueca que o elegeu considera que “os romances de J.M. Coetzee são caracterizados por uma composição bem-construída, diálogos significativos e brilhantismo analítico”.
O escritor também recebeu o Booker Prize (prêmio literário de obras redigidas na língua inglesa) pelo mesmo livro ganhador do Nobel e também por "Vida e Época de Michael K".
Aliás, sobre “Desonra” o crítico literário Manuel da Costa Pinto (escritor do Guia da Folha e editor do programa Entrelinhas da TV Cultura) foi enfático em entrevista concedida a integrantes da equipe Cultura na Mesa:
“É um livro incrível. Coetzee é o maior autor vivo. E não podemos simplesmente dizer que é o maior vivo porque não temos muitos bons exemplos hoje. Não, é porque ele é bom mesmo. Comparado a Albert Camus e a Dostoiévski.”
Mas não é apenas Coetzee o destaque na África. Nadine Gordimer é outro bom exemplo. A autora sul-africana também foi Nobel de Literatura, no ano de 1991. Os sentimentos de alguém que sempre lutou contra o preconceito e o apartheid estão presentes em suas obras, como “A filha de Burger”, “A arma da casa”, alguns dos já publicados em português.
Vale a pena conferir a riqueza destes autores. Acompanhe também a reportagem que foi ao ar no Entrelinhas sobre o tema
O livro Cacilda Becker - Fúria Santa de Luis André do Prado, publicado em 2002 pela Geração Editorial, apresenta a trajetória de uma das principais atrizes brasileiras. Nascida no interior de São Paulo, filha de alemães, Cacilda Yaconis Becker, a Cidinha, teve uma infância miserável, filha primogênita, ajudou a mãe a criar e educar as irmãs Dulce e Cleide Yaconis Becker.
Talentosa, curiosa e autêntica os dons artísticos se manifestaram logo no início da adolescência. Carismática e visceral, Cacilda subiu no palco pela primeira vez aos dez anos de idade numa apresentação escolar, onde dançou "A Dança do ritual do fogo" a partir de movimentos improvisados e impulsionados pela música e seus sentimentos a atriz, então bailarina, durante a adolescência foi considerada a Isadora Duncan brasileira, tendo sua performance comparada ao da bailarina contemporânea alemã Mary Wigman - que ao lado de Rudolph Laban preconizou a dança contemporânea na década de 1940.
Fazendo como palco as praias do litoral santista, clubes e festas da burguesia paulista, Cacilda foi aos poucos sendo inserida à elite intelectual, conquistando espaçoaté que chegasse aos palcos da metrópole como atriz.
A biografia apresenta a trajetória da atriz em dezenove capítulos, com um texto de abertura assinado por Alberto Guzik e o epílogo de Carlos Drummond.Logo nas primeiras páginas o leitor é seduzido pelo texto impecável de Guzik: "Ela fez parte de uma geração de titãs". Contudo, é no poema de Drummond que é sublimado o brilho da principal atriz brasileira "morreram CacildaBecker. Não era uma só, eram tantas".A arte da capa, a diagramação do texto, as fotos e o papel fosco envolvem o leitor-espectador na história, no universo de sedução, dor, glamour e amores.
Para além da trajetória pessoal de Cacilda, a obra de Luís André do Prado apresenta a história do teatro brasileiro entrelaçada com o desenvolvimento da imprensa brasileira, permeados pela transição do cenário político e cultural brasileiro. Com uma rica pesquisa bibliográfica, iconográfica, a narrativa é construída a partir de depoimentos e entrevistas de pessoas próximas a atriz.
Se,‘o importante é o biógrafo não se prender apenas a fatos, mas usá-los a serviço da construção da personagem. Ao preencher lacunas na vida do biografado, a ficção entra como “uma interpretação baseada em documentos, criando pontes metafóricas", a obra de Luís André Prado traz ao leitor um rico compêndio de relatos historiográficos e apuração jornalística realizado durante sete anos. O autor possibilita ao leitor uma compreensão histórica para além dos palcos, dos gestos da atriz, mas, sobretudo insere o leitor no universo mágico e polifônico da criação e vivência teatral de Cacilda.
A obra é construída num ciclo-ritual do morrer-nascer-morrer. A partir de relatos do filho, do ex-marido, público e amigo a cena da morte da atriz é reconstituída. A narrativa em primeira pessoa aproxima e seduz o leitor que aos poucos se emociona e se surpreende. Sendo o ofício de ator compreendido como um eterno nascer-morrer, a criação artística, o pisar no palco e a busca por um gesto poético fizeram de Cacilda uma legítima sacerdotisa de Dionísio, atriz da arte do êxtase, onde nada era ou foi estático e sim, a arte, o teatro, a dança se apresentavam como expressão da vida: movimento e transformação.
A atriz que primeiro se revelou, ainda adolescente, como bailarina da dança improvisada, sentida, muda e calada, viu no teatro a possibilidade de se expressar, ter e ganhar voz sua visceralidade, sua força e,sobretudo, sua sobrevivência. Nos palcos paulistas participou das montagens que mudaram a história do teatro brasileiro. Enquanto, nos anos 1960, o Teatro Arena e Teatro Oficina lutavam por um teatro político e engajado, Cacilda defendia a arte pela arte, o teatro como fonte de fuga e prazer inesgotável para o espectador sem, contudo, se isentar das lutas políticas da época.
Cacilda Becker – Fúria Santa é um livro para todos os públicos e meios sociais, contudo, atores, pesquisadores teatrais e comunicadores das artes devem lê-lo com os olhos curiosos e atentos às narrativas que constroem o cenário das artes-cênicas contemporânea brasileira.